TORRE DE BELÉM

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Quem é essa que à beira mar se levanta
com a beleza e a graça de uma Infanta,
que, com a bravura das caravelas,
desafia o mar, os ventos e as procelas ?
         Que torre é essa de porte de raínha,
         com a elegância de uma nau marinha ?
         Que torre é essa de alma forte e guerreira,
         viva e desafiante qual bandeira ?
Torre de Belém, torre da proeza !
Oh alma de pedra e de fortaleza
de Portugal, para sempre encarnada
nesta nau na foz do Tejo ancorada,
quantas glórias tu fazes recordar:
façanhas e triunfos no além-mar !
        Tu lembras, oh caravela lendária,
        a vocação cruzada e missionária
        de Portugal, marujo de olhar fito
        no horizonte, perscrutando o infinito.
Quem? Quem te deu essa brancura de garça,
espalhando-se na onda que se esgarça ?
Quem te deu a leve graça da gaivota
que esvoaça em busca de nova rota ?
        Tu, como Portugal, pequena embora,
        revelas a alma grandiosa que em ti mora,
        tão pequena e grandiosa és, que, talvez,
        tua grandeza venha de tua pequenez.
Do alto de tua plataforma guerreira,
bem se vê tua humildade altaneira.
Quem te vê tão só, te vê tão pequena,
quem te vê tão grandiosa, tão serena,
oh caravela de pedra no Tejo,
compreende tua alma ardente de desejo
de ultrapassar verdes mares e montes,
a sede lusa de vencer horizontes,
a ânsia de ir sempre mais além,
até plantar a Cruz em Jerusalém !
        Portugal, em tuas noites de veludo,
        em tua torre, cada ameia é um escudo,
        na aurora, toda banhada de luz,
        em tua torre, cada escudo, uma cruz.
Torre de Belém, nau petrificada,
em ti vive o espírito da cruzada.
Como não te faria assim teu artista
a ti, oh filha e flor da Reconquista ?
        Dos cavaleiros, tu tens a ousadia,
        tens sua nobreza, sua leal valentia,
        a dureza de suas brancas couraças,
        tens a sua honra, sua grandeza e suas graças.
Que fortaleza nessa torre quadrada,
firme no convés de pedra lavrada !
Como flutuas graciosa sobre as vagas
que te trazem saudades de outras plagas,
gratos e castos beijos do oceano,
por tua renúncia ao solo lusitano.
Recebe das ondas, com suas carícias,
da Índia, tesouros, do Brasil primícias.
       E como tu és amena !
       E como tu és serena !
       E que simplicidade e formosura
       em teu severo claustro de verdura !
Como revela bem lusa confiança,
do Bom Sucesso, a Virgem da Esperança,
em teu convés, Rainha e Capitã
de tua epopéia intrépida e cristã !
       Que graça delicada em teus arcos
       enlevados com as velas dos barcos,
       deslumbrados, olhando para o mar,
       e jamais cansados de o contemplar.
Como lanças tua proa com ousadia,
cortando o mar que em vão te desafia !
E a Vigilância, alerta sentinela,
espreita a mourisca inimiga vela,
nas torretas altivas do convés,
indiferente às ondas a seus pés.
       De tuas salas austeras de convento
       já não mais são levados pelo vento
       cantos de guerra e cantos de mosteiros,
       vozes de monges, vozes de guerreiros !
       Já não mais se ouvem cruzados em prece,
       ora que em Portugal a noite desce.
Oh Torre de Belém, oh caravela,
que grandeza tua vocação revela !
Junto de ti, tudo é tão pequeno,
menos Portugal, a teus pés sereno
e imenso, na imensa epopéia das ondas,
vencidas por suas velas e suas sondas.
                   Torre de Belém, como estás solitária,
                   meditando em tua história lendária !
Onde estão os teus cruzados da vela ?
Onde, teus marinheiros, caravela ?
Onde, os bravos por quem o Tejo chora ?
Onde estão eles? Onde estão, agora ?
                   Torre de Belém, tu já não me escutas ?
                   A que estás atenta ? O que perscrutas ?
                   — “Revejo meus portugueses de joelho,
                   cantando o Credo, em pleno Mar Vermelho !
                   Já não atento a nada que me acerque:
                   tenho saudades do Grande Albuquerque !”
Ah !…Em vão, em vão o vento os procura
na noite de Portugal, triste e escura.
Em vão percorre as ameias desertas,
o convés vazio, as janelas abertas…
Em vão por teu mastro o vento perpassa,
desejando as brancas velas e a graça
de oscular nelas a cruz de sangue,
onde, por amor, Cristo morreu exangue.
Quer arrancar-te desse ancoradouro,
levar-te p’ra o heroísmo imorredouro,
levar-te sobre as ondas do oceano,
em cruzada contra mouro e otomano.
                   Em teu convés de pedra o vento chora,
                   porque já não sais pelo mar afora,
                   as velas do heroísmo e da proeza
                   enfunadas ao vento da grandeza,
                   a combater contra o novo Baal,
                   branca caravela de Portugal !
Ah !… Em vão o vento
sopra o seu lamento,
no Tejo saudoso,
triste e silencioso,
já sem caravelas…
Onde estarão elas ?
                   E vai nos Jerônimos soluçar
                   com o Gama e Camões a rogar
                   a ressurreição gloriosa e imortal
                   da alma-caravela de Portugal !
“Não mais, musa…” Caravela, jamais ?
Terás naufragado ? Não tornarás mais ?
                   Oh Torre de  Belém, tu não vês que o vento,
                   buscando as velas, por um momento,
                   de ti se afasta, deixa o Mar de Palha,
                   e vai pelas serras até a Batalha ?
                   Quem sabe lá, quem sabe lá, talvez,
                   exista inda um coração português,
                   um coração digno do Condestável,
                   e capaz de, intrépido e indomável,
                   desafiar a terra, o mar e o mundo,
                   desprezando tudo o que é vil e imundo.
                   Torre de Portugal, em vão, em vão…
                   Já não há mais portugueses então ?
Já não há mais cristãos atrevimentos ?
E para que o mar ? E para que o vento ?
Para que brilham as estrelas belas,
se já não há mais brancas caravelas ?
                   Se os portugueses não vão mais vencê-las,
                   por que, no mar, as ondas e as procelas ?
                   Se há verdades, não almas para crê-las,
                   como singrariam ousadas caravelas ?
                   Portugal, tuas glórias como esquecê-las ?
                   Como olvidar, oh Torre, o que revelas ?
E não haverá mais quem ame a glória ?
Não há mais quem ouça o vento da História,
trazendo aos bons filhos de Afonso Henrique
a voz das ondas e os brados de Ourique,
e bem alto proclamando: “Real ! Real !
Por Afonso, alto Rei de Portugal “?
                   Não há mais senão almas sem grandeza,
                   almas vis, insensíveis à proeza ?
                   Não haverá senão homens incréus,
                   que olham só p’ra a lama e não para os céus ?
Terra de Portugal, geme e chora;
geme com o vento, com o Tejo chora.
Ajoelha-te aos pés da Virgem e implora.
Ela só pode te valer agora,
que a ralé infame renega em tuas praças,
tua Fé, tua glória e tuas graças.
Chora, oh terra de Santa Maria,
que dos teus sofres a tirania !
                   Chora por tua queda e apostasia,
                   porque em ti, Portugal, reina a baixeza.
                   São teus ídolos número e torpeza.
                   Amastes a chulice e a vulgaridade,
                   sofismas e mentiras da impiedade.
                   Chora a tua surdez pelo heroísmo,
                   e teu repúdio ao Catolicismo.
                   Chora, sim, Portugal, os teus muros
                   cheios de lemas imbecís e impuros:
                   Viva o MAF ! Viva a Demagogia !
                   Viva Marx ! Viva a Pornografia !
Torre de Belém, que desolação !
Que vergonhosa capitulação !
Portugal, que crepúsculo de lama,
que noite suja abafou tua chama !
                   Torre de Belém, oh alma imortal,
                   coração épico de Portugal,
                   inflama-te, pulsa, pulsa de novo,
                   e faz correr nas veias de teu povo
                   o sangue heróico que enrubesce a face,
                   pelo amor da proeza que renasce.
Oh Torre de Belém, torre imortal,
desperta, ressuscita Portugal !
Dá-lhe sede de horizontes distantes,
desprezo pelas coisas infamantes.
                   Caravela de Portugal, “Plus Ultra !”
                   Leva a rubra cruz das velas Plus Ultra !
                   Retorna a ser o que foste em Ourique,
                   de joelhos com Dom Afonso Henrique !
                   Repudia as trinta moedas do teu escudo,
                   que só na cruz de Cristo terás tudo !
Branca Torre, conta, conta o segredo
de tua grandeza heróica e sem medo!
Diz para Portugal o que te disseram
o vento e o mar, que teus bravos venceram.
Portugal, escuta o vento da História !
Escuta a Torre cantar tua glória !
                   Quando o vento sopra, vindo do mar,
                   fala das almas a cristianizar,
                   de povos rudes a civilizar .
                   E quando o vento vem da velha terra,
                   fala de bravura de alma e de guerra,
                   do Condestável, da Virgem Maria
                   que disse que tua Fé não morreria.
                   Fé que te deu  grandes alentos
                   p’ra sempre mais cristãos atrevimentos !
                   E se a Fé em ti não perecerá,
                   então, Portugal jamais morrerá !
Promessa de Fátima, garantia
do triunfo do Coração de Maria !
Garantia que a branca caravela
de novo singrará o mar, e mais bela,
velas brancas ao vento da proeza.
Promessa que é, de vitória e certeza
de que o triunfo de Maria profetiza,
e o século vinte anatematiza !
Promessa de Fátima que anuncia
aos pastores lá na Cova da Iria,
vibrante, qual trombeta triunfal:
Real ! Real ! Por Deus ! Por Portugal !
                   Portugal, terra de Santa Maria,
                   ouve a mensagem da Cova da Iria !
Oh Torre, oh caravela sacral,
roga, roga à Virgem por Portugal !
Oh Torre de Belém, se estás de pé,
vive a alma de Portugal pela Fé !
                   Torre de Belém,  querer resoluto,
                   a Portugal heróico em ti revejo.
                   Oh caravela ancorada no Tejo,
                   que desejo do Bem absoluto !
                   De Deus infinito, ah!  que  desejo !
Torre de Belém,
branca flor, alma de glória imortal !
Torre de Belém,
branca caravela de Portugal !
                            Orlando Fedeli.
                                           

LA FIESTA: ECOLOGÍA, PASIÓN Y MUERTE

     Um dia, um jornalista me perguntou se as touradas eram de direita ou da esquerda. Havia motivos ter dúvida: na França há tantos aficionados de esquerda como de direita. E a defesa das touradas é o único ponto político comum entre os cinqüenta municípios que se mobilizaram para que a UNESCO reconheça “La Fiesta” como patrimônio imaterial da humanidade.

     Eu respondi: não mais que a ópera, o flamenco, o ciclismo, os touros não são de direita nem de esquerda. Entretanto, há partidos ecologistas que deveriam reconhecer na Fiesta seus próprios valores.

     Infelizmente, estes partidos costumam estar pintados de uma ideologia animalista muito pouco ecológica e cheios de militantes que ignoram a realidade da vida do touro no campo e da sua morte na arena.

     Os defensores das touradas, sim, dirigem um combate ecologista. Primeiro, defendem uma das últimas formas de criação extensiva que existem na Europa, na qual, cada animal dispõe de um a três hectares de território. Acabem com as touradas e muitas dessas terras hoje reservadas ao touro de lida serão destinadas a uma agricultura intensiva ou industrial.

     Eles defendem um ecossistema único, o pasto, que é uma verdadeira reserva de fauna e flora a imagem dos grandes parques naturais protegidos.

     Também defendem a biodiversidade. O touro bravo constitui uma variedade única de touro selvagem preservada graças aos grandes criadouros e que ficaria condenado ao matadouro se acabassem com a Fiesta. É um caso único de criação que respeita quase todas as exigências da vida selvagem de um animal (território, alimentação, etc.) precisamente porque é necessário, em vista do futuro combate, preservar seu instinto natural de agressividade e de desconfiança em relação a todo intruso, em particular, o homem. O touro de combate é o único animal doméstico que para satisfazer as finalidades humanas para as quais é criado necessita que não se o domestique. Tem de ser criado o mais naturalmente possível – pois se não fosse assim, seu combate na arena seria impossível e a tourada perderia seu sentido -.

   Existe espetáculo ou arte mais ecológico que as touradas? Com certeza não. No entanto, acontece que muitos ecologistas “esquecem” seus valores para adotar valores animalistas opostos.

     Defender a biodiversidade, o equilíbrio das espécies e dos ecossistemas não tem nada a ver com o fato de se ocupar com o destino individual de cada animal. Não se pode salvar a espécie “leopardo” e se preocupar com o destino individual das gazelas. É necessário escolher. Para salvar o touro de lida como espécie, é preciso sacrificar alguns exemplares destinados mais a arena que ao matadouro.

     Torna-se paradoxal que para salvar a alguns exemplares tenha que condenar toda a espécie, tornada inútil no matadouro.

     Mas, não podemos nos compadecer do destino dos animais? É claro que sim.

     Devemos devolver aos nossos cachorros e gatos o afeto que nos professa, uma espécie de contrato moral afetivo nos une a esses animais de companhia, e claro é cruel bater no seu cachorro e é imoral o abandonar na estrada. Com os animais domésticos, temos outro tipo de contrato moral, eles nos dão lã, couro e carne, em troca de nossa proteção, uma alimentação adaptada e condições de vida descentes. Torna-se cruel criá-los em massa e reduzi-los a máquinas de carne. E com os touros bravos? Outro tipo de contrato nos une a eles: respeitar sua bravura enquanto vivem e até a morte. Portanto, é moral criá-los de acordo com a sua natureza brava (livre, insubmisso e rebelde) e sacrificá-los em um combate que lhes dê sentido, importância e gravidade; um cara a cara que respeita sua natureza brava e durante o qual o homem arrisca sua própria vida à altura do respeito que este tem pela vida de seu adversário. Não é isso mais moral que a contenção forçada e o sórdido silêncio de um matadouro?

    Que não gostem da tourada por uma questão de sensibilidade pessoal, é compreensível: todas as sensibilidades são respeitáveis. A quem ignora tudo sobre a tourada, as condições de vida ou de morte do touro, a ética do combate e sua estética, a todos que imaginam um espetáculo cruel e sanguinário, somente há que lhes aconselhar que visitem alguns criadouros ou assistam a algumas tarde heróicas e grandiosas. Verão a comunhão espiritual que rodeia a este espetáculo pungente e sublime. E se preferem se manter afastados dos touros e conservar seus preconceitos, são livres, na condição de que sua ignorância não os faça intolerantes com aqueles que não pensam nem sentem como eles. Mas os que se atrevem a classificar como “tortura” o perigoso enfrentamento na arena, onde o homem arrisca sua vida em cada instante, isso é uma questão de má fé. É um insulto a todos os torturados da terra. É querer inverter o sentido das palavras: torturar é sem correr nenhum perigo, fazer sofrer a um adversário que se encontra indefeso, enquanto que tourear consiste em que o animal possa em todo momento atacar livremente ao seu oponente, ao que se pode ferir a cada instante, um animal cuja bravura e perigo aumentam conforme transcorre o combate. Se fosse um boi, não deixaria de fugir (e isso sim seria tortura) e então não haveria luta, se o touro fosse realmente torturado, fugiria em lugar de redobrar esforços e seguir lutando. Falar de tortura para se referir as touradas é atacar a todas essas atividades, entretanto bem pacíficas, que implicam na morte de um animal, como a pesca com vara.

     Pode-se chamar de torturadores a esses pescadores domingueiros?

   Os aficionados não desfrutam das feridas do animal! Admiram a inteligência do homem, a bravura do animal, o valor dos combatentes, a transformação de uma força bruta em obra humana. Os auto-proclamados defensores dos animais, que adotam o monopólio da moral e dos bons sentimentos, como se nós, os aficionados, fossemos insensíveis e imorais, todos esses animalistas, se compadecem talvez dos sofrimentos de alguns, mas amam de verdade os animais pelo que são, o que fazem e o que encarnam? Aceitam a animalidade em toda sua diversidade ou o que querem é reduzi-la ao fantasma de amáveis animaizinhos de desenhos animados de Walt Disney?

   Quem ama os touros sabe que para eles o pior dos males é o stress que leva o confinamento, mais que a “dor”, anestesiado pelo combate e transformado em combatividade: o soldado – ou o toureiro!- esquece suas feridas no ardor da batalha, são absorvidas pela ação e transformadas em atos.

    Sejamos generosos e suponhamos que todo mundo é sincero, tanto os aficionados como os anti taurinos. Vamos admitir que todos amam o touro e querem defendê-lo. Uns vêem nele um herói que luta, os outros uma vítima a que se mata. Mas isso seria impossível, tanto para uns como para outros, sem uma dose de identificação. Tratemos então de responder com franqueza. O que preferiríamos se tivéssemos que nos colocar “no lugar” do animal? Uma vida de boi de campo encadeado que se acaba passivamente no matadouro ou uma vida de touro em liberdade que se prolonga em vinte minutos de combate valente? Talvez alguns tenham dúvida… Se tiverem, não denigram aos que preferem a vida e a luta do touro bravo, não denigram aos que pensam que sua sorte é uma das mais invejáveis de todas as espécies animais que o homem se apropriou para satisfazer seus fins e que povoa sua imaginação. Não sentenciem a morte das touradas nem dos touros de combate, respeitem a quem os amam.

Francis Wolff

Professor de filosofia da Univerdade de Paris.

VINHO JEREZ, A TOURADA ENGARRAFADA

JEREZ

      Jerez, um dos mais elevados vinhos que existe. Feito somente na região delimitada pelas cidades: “Jerez de la Fronteira”, “Sanlúcar de Barrameda” e “Puerto de Santa Maria”. De “terroir” único, a uva que lhe dá origem é cultivada no solo branco inconfundível:  “la albariza”.

      Cuida-se de um vinho bem seco (“muy seco”) perfeito para as  “entradas” e para “las tapas”.  Explora bem o fundo da língua (perto da garganta)

      O jerez possui características únicas e não muito fáceis de serem distinguidas. Ele se mostra forte e decidido, não tem nada de “docinho” ou sentimental.

      Como ele tem um sabor difícil, mercadologicamente é pouco aceito no mundo inteiro, como se ele não estivesse preocupado com o que o mundo “pensa”. É um vinho contra o “opinionismo”.

      O jerez enfrenta bem, como nenhum outro vinho, vários sabores fortes, como o da azeitona e o do “jamón serrano”.

      Sutilmente ele se impõe.

      Como o vinho representa o lado espiritual e a comida o lado material, há no vinho jerez, a submissão do prazer material ao espiritual, simbolizando o domínio da alma sobre o corpo e da razão sobre o irracional.

      Ele é similar à tourada, que representa de forma ímpar, o duelo e a vitória da alma e do espírito contra o corpo e a matéria.

      Não é à toa que o vinho jerez nasceu na mesma região da escola de montaria de “Jerez de La Fronteira”, caracterizada justamente pelo controle total do cavalo (andaluz) pelo cavaleiro. Região que também deu ao mundo a tourada moderna (Ronda).

 

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VINHOS, TOURADAS E A JUSTIÇA

 

O grande vinho que se relaciona com a tourada é o Jerez. Já tive a oportunidade de comentar sobre isto.

Haveria outros?

A justiça pode ser simbolizada pelo vinho, já ensinou S. Tomás.

Esta virtude cardeal está no meio termo, no equilíbrio entre a punição e a misericórdia. Tanto a crueldade excessiva quanto a “moleza” são injustas.

Os bons vinhos definem um equilíbrio entre o amargor, presente no fundo da língua, e a doçura, presente na ponta da língua. Formam uma “balança da Justiça”.

Só que como a degustação é dinâmica, há um sentido lógico nela, que começa pelo amargor e termina doce. Pois, a prática da virtude começa com dificuldade e termina com alegria.

Lembro que este “doce” nada tem a ver com sentimentalismo.

Este dinamismo fortalece a ideia da Justiça, tendo em vista a natureza do vinho e a da “sentença final”. Expliquemos.

Se um vinho começa não tão amargo e termina com doçura superior ao amargor inicial pode representar uma sentença absolutória.

Se um vinho começa amargo, agressivo e não termina com doçura proporcional, pode representar uma sentença condenatória.

A tourada também pode se relacionar com a Justiça. De um lado está o toureiro, a face racional, leve, o lado “doce”, o lado absolutório. De outro lado, o touro representando a face bruta, irracional, o lado “amargo”, o lado condenatório. A balança da Justiça está formada.

Assim, como o vinho, a tourada é dinâmica. O touro, inicialmente, começa violento e agressivo e o toureiro aos poucos vai “adoçando”, controlando o “amargor” do animal.

A “estocada final”, na realidade, é a vitória do lado doce, ponto final do caminho da virtude. Por isso, o toureiro recebe aplausos e homenagens, há comemoração e não tristeza e toda festa é alegre, leve.

A estocada final, na degustação, seria o momento em que o vinho é engolido, foi definitivamente “vencido”. É o momento da “sentença proferida”, após o decurso do processo judicial.

Se o touro é muito bom, ele pode ser “indultado”, foi “absolvido”. Qual vinho combinaria com isto? Poderia ser um tinto leve, um branco vigoroso como um Albariño das Rías Baixas, ou até mesmo um champagne ou uma cava.

Como não ver uma alegria esfuziante, como num champagne, neste “indulto”, com José Tomás (min 4:20):

Para representar uma tourada mais difícil com um animal bem feroz, um tinto encorpado de Rioja ou ainda um malbec argentino.

Marcelo Andrade, 9 de março de 2014

 

 

 

UMA HOMENAGEM A PACO DE LUCÍA

– Comentários à “La Plazuela (bulerias)” –

Faleceu Paco de Lucía, um dos maiores violonistas que se conheceu.

As cordas da guitarra dele produziam sons magníficos que harmonizavam muito bem com uma tourada (e com um vinho Jerez, diga-se de passagem).

A música (e o vídeo com “link” abaixo) “La Plazuela” é magnífica.

Paco de Lucía é como um toureiro e a viola é como um touro. Assim como o matador tem de dominar o animal, o músico domina o instrumento.

A música entoada em “La Plazuela” é tão magistral quanto o visual de uma tourada proporcionada pelos grandes toureiros.

O vai e vem das cordas da guitarra de Paco são tão bem executados, precisos e rápidos, quanto os passes que o toureiro realiza, todos melódicos e curvos.

Os acompanhantes de Paco, no vídeo “La Plazuela”, batem na mesa e gritam “vale!”. Assim como a plateia, na “Plaza de Toros”, grita “olé!”.

No final, compreende-se que Paco dominou completamente o instrumento, os últimos acordes são como a estocada final de uma tourada.

O flamenco se desenvolve como um drama, assim como a tourada. E os dois são poéticos, vibrantes, firmes e harmônicos entre si.

Tudo muito espanhol, tudo muito esplêndido.

Vale!

São Paulo, 27 de fevereiro de 2014

 

“La Plazuela”:

O TOURO, O MARQUÊS E BAYARD

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O touro tem um simbolismo espetacular. Nenhum animal tem esta marca.

O touro luta até o fim de suas forças e morre de pé. Mesmo na hora terminal, fita o inimigo sempre de frente.

Não conhece a covardia.

Onde um leão fugiria, o touro restaria.

Houve época que existiam as ordens de cavalaria e existiam os batalhadores de escol.

Que desconheciam, também, a pusilanimidade.

No começo do século XVI, havia o marquês de Pescara, general do Império Espanhol e havia Bayard (francês), o “cavaleiro sem mácula e sem medo”, como era conhecido por todos.

Os dois eram cavaleiros destacados por bravura.

Em 1524, na batalha de Sesia, o marquês liderava o exército espanhol e os lendários “tercios” (unidades espanholas de elite que não sabiam recuar ante o inimigo) contra os franceses.

E lá estava Bayard lutando sem medo, ao lado de seus compatriotas, quando foi ferido de morte.

Imediatamente socorrido, o que pediu primeiro não foi auxílio médico, mas que fosse virado de frente para o inimigo, pois jurou que nunca daria as costas para ele nem na hora da morte.

Isto foi feito.

E a Espanha venceu a batalha.

Sabendo da queda do cavaleiro francês, o marquês de Pescara foi ter ele e ofereceu ajuda, o que incluiu a vinda de um padre. Afinal, reconhecia os méritos do oponente.

Quando o touro morre e demonstra muita valentia, seu corpo é levado por carruagem, em desfile, ao longo da “Plaza”. A multidão aplaude a valentia do animal e reconhece o simbolismo de bravura e de força.

Por fim, marquês de Pescara ordenou que o exército espanhol, então vencedor, desfilasse na frente de Bayard e prestasse homenagem a ele.

Assim morriam os bravos cavaleiros, assim morre o valente touro na arena.

 

Marcelo Andrade, 22 de janeiro de 2014