CÓRDOBA: SABOR DE VITÓRIA

catedral

Fig.1 A Mesquita-Catedral, vista da ponte romana, tendo o “Triunfo de São Rafael” à direita.

 

 

No tempo do Califado de Córdoba, Almanzor, caudilho muçulmano, aterrorizou os católicos por meio de 56 campanhas militares contra as cidades católicas do norte da Península Ibérica. Como estas expedições eram violentas e próximas do ano 1000, não faltou quem acreditasse que se vivia no fim dos tempos.

Numa destas campanhas, ele saqueou Santiago de Compostela e roubou os sinos das igrejas desta cidade (também levou embora sinos de outras cidades), obrigando os católicos cativos a carrega-los até Córdoba, onde foram transformados em lampadários e em portas da mesquita principal da cidade, a segunda maior do mundo que perdia apenas para a de Meca.

Almanzor só não vandalizou o túmulo do apóstolo porque ficou impressionado com a piedade de um monge que rezava abraçado ao sepulcro.

 

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A cidade de Córdoba foi fundada pelos romanos em 169 A.C. e tornou-se a capital da Hispânia Bética. A grande figura, natural desta cidade e deste tempo foi Sêneca. Após as migrações bárbaras e a conversão de toda a Península Ibérica, a cidade tornou-se católica, pertencente ao Reino Visigótico.

Em 711, as hostes mouras invadiram a Península Ibérica,  derrotaram o exército do Reino Visigótico, que acabou por desaparecer completamente, e estabeleceram a sua capital em Córdoba. No apogeu, a cidade teve mais de 400.000 habitantes. Averróis foi uma das grandes figuras desta época de domínio islâmico nascida nela.

Os católicos que viviam na capital do califado tinham de morar em bairros extramuros e eram cidadãos de segunda classe, não tinham os mesmos direitos dos islâmicos e muitas vezes eram acossados. Os judeus, porém, eram aliados dos mouros e viviam intramuros, Maimônides foi um expoente desta comunidade.

No séc. IX, Santo Eulógio e outros bravos católicos foram perseguidos pelos mouros e foram martirizados. Santa Flora disse na frente do juiz muçulmano que Maomé era adúltero, feiticeiro e bruxo e Santa Maria de Córdoba, na cara do mesmo juiz, disse que o islamismo era uma invenção do demônio.

Em 1236, a cidade foi reconquistada por São Fernando III, rei de Castela e Leão, pondo fim a séculos de domínio mouro.

 

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Córdoba é encantadora.

As ruas labirínticas da cidade antiga, com as casas brancas e os patios sempre decoradas com flores, vencem facilmente em simpatia e em charme o urbanismo moderno com suas ruas pseudorracionais destinadas aos automóveis.

 

patios

Fig 2. Patio de Córdoba

 

Os interessantes bares de tapas (são encontrados em boa parte da Espanha, mas são mais típicos da Andaluzia), sempre alegres, são normalmente decorados com peças de Jamon Serrano penduradas e com fotos de touradas espalhadas pelas paredes. Estes bares, por comparação, derrotam sem piedade os “restaurantes de fast-food” e sua ambiência humilha as calamitosas “praças de alimentação” modernas. Assim, o vinho fino de Montilla-Moriles (região vinícola da província de Córdoba), com sua personalidade marcante, destroça a irracionalidade da Coca-Cola e das bebidas similares. Las tapas, como o jamon, a carrillada etc reduzem a pó o “gosto de isopor” dos hambúrgueres do Mcdonalds e similares.

A Plaza de Toros (presente em boa parte das cidades espanholas) mostra a corrida de toros que vence com facilidade, como espetáculo, os demais esportes como o futebol, o basquete etc. e também desafia o mundo moderno, contrastando suas frescuras, como o delirante “direito dos animais” e o “ecochiismo”.

Na Plaza de las Tendillas há uma bela estátua de El Gran Capitán, nascido na província de Córdoba, o que faz lembrar as esplêndidas campanhas militares dele que ajudaram a Espanha a ser uma potência mundial.

O arcanjo São Rafael é o padroeiro da cidade, ele apareceu várias vezes para o padre Roelas no séc. XVI e prometeu salvar – e de fato salvou- a cidade de uma peste, por isso, espalhadas pela cidade há imagens do “Triunfo de São Rafael”.

A antiga mesquita possui mais de 150 “arcos de ferradura”, erroneamente ensinados como sendo de invenção islâmica, na realidade, são criação visigótica, de modo que muitos arcos foram tirados de antigas igrejas visigóticas e instalados lá. Após a reconquista da cidade, a antiga mesquita se tornou catedral e uma construção, de planta de cruz latina, foi erguida na parte central da antiga mesquita, muitos arcos foram preservados e capelas laterais foram construídas também. É o do tipo de edificação única no mundo.

arcos

Fig3.  Os belos arcos de ferradura na Mesquita-Catedral, de origem remota visigótica.

 

Vista da ponte romana, onde às vezes pode-se ouvir uma buleria vencendo o silêncio, o corpo principal da catedral ergue-se acima das muralhas da antiga mesquita e como que rompendo o teto desta, sobrepõe-se soberana e majestosa, assim como a Religião Católica se impõe como a única verdadeira sobre as demais religiões.

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São Fernando, ciente da história dos “sinos roubados”, ordena, logo após a reconquista da cidade, que os antigos sinos sejam reconstruídos e obriga os mouros cativos a levarem-nos de volta para Santiago de Compostela.

 

Córdoba tem sabor de vitória.

 

São Rafael, São Fernando III e os mártires de Córdoba, rogai por nós.

 

Marcelo Andrade, 2 de janeiro de 2020

OS FORCADOS

forcados

 

Os forcados como imagem de Portugal, coragem em estado puro, na qual o “forcado de cara” deve chamar, enfrentar o touro de mãos desapercebidas e segurar a fera pela cabeça até receber a ajuda dos outros forcados. Esta é a figura do Portugal onde a fé sempre há de permanecer, o Portugal de Vasco da Gama, de Afonso de Albuquerque, de Francisco D´Almeida, de Salvador de Sá que nunca se assustaram ante a força de seus inimigos nem ante o tamanho das tormentas do além mar.

Portugal na frente dos touros!

 

Por Nossa Senhora de Covadonga e de Fátima!

Por Santiago!

ps: VIDEO:

O CAVALO

O CAVALO.png

Puro sangue lusitano (PSI), um “cavalo de rei em dia de triunfo”, como se diz em Portugal.

O CAVALO

Homem tem belo oficio

se usa o corcel como eleição

e só conhecerá beneficio.

 

De rédeas na mente e na mão,

a montaria é vero tesouro,

andar elegante e  tradição.

 

O cavalo é número de ouro,

porte digno  e incontroverso,

nobreza em todo logradouro.

 

Há classe até no passo reverso,

o trote inspira boa oratória,

o  galope é digno de verso.

 

Heróis forjaram sua história,

do covarde e do feio é apartado,

onipresente na luta e na glória.

 

O equino todo dominado

é algo  espiritual  e brioso,

como corpo pela alma domado.

 

Existe transporte mais ditoso?

Na apartação e na tourada,

ele é corajoso e  operoso.

 

Incansável na jornada,

dorme de pé com alteridade,

jamais salta em retirada.

 

E coiceia a mediocridade.

 

Marcelo Andrade

Junho de 2018

 

PS: cavalo em ação na praia de Doñana:

LA FIESTA: ECOLOGÍA, PASIÓN Y MUERTE

     Um dia, um jornalista me perguntou se as touradas eram de direita ou da esquerda. Havia motivos ter dúvida: na França há tantos aficionados de esquerda como de direita. E a defesa das touradas é o único ponto político comum entre os cinqüenta municípios que se mobilizaram para que a UNESCO reconheça “La Fiesta” como patrimônio imaterial da humanidade.

     Eu respondi: não mais que a ópera, o flamenco, o ciclismo, os touros não são de direita nem de esquerda. Entretanto, há partidos ecologistas que deveriam reconhecer na Fiesta seus próprios valores.

     Infelizmente, estes partidos costumam estar pintados de uma ideologia animalista muito pouco ecológica e cheios de militantes que ignoram a realidade da vida do touro no campo e da sua morte na arena.

     Os defensores das touradas, sim, dirigem um combate ecologista. Primeiro, defendem uma das últimas formas de criação extensiva que existem na Europa, na qual, cada animal dispõe de um a três hectares de território. Acabem com as touradas e muitas dessas terras hoje reservadas ao touro de lida serão destinadas a uma agricultura intensiva ou industrial.

     Eles defendem um ecossistema único, o pasto, que é uma verdadeira reserva de fauna e flora a imagem dos grandes parques naturais protegidos.

     Também defendem a biodiversidade. O touro bravo constitui uma variedade única de touro selvagem preservada graças aos grandes criadouros e que ficaria condenado ao matadouro se acabassem com a Fiesta. É um caso único de criação que respeita quase todas as exigências da vida selvagem de um animal (território, alimentação, etc.) precisamente porque é necessário, em vista do futuro combate, preservar seu instinto natural de agressividade e de desconfiança em relação a todo intruso, em particular, o homem. O touro de combate é o único animal doméstico que para satisfazer as finalidades humanas para as quais é criado necessita que não se o domestique. Tem de ser criado o mais naturalmente possível – pois se não fosse assim, seu combate na arena seria impossível e a tourada perderia seu sentido -.

   Existe espetáculo ou arte mais ecológico que as touradas? Com certeza não. No entanto, acontece que muitos ecologistas “esquecem” seus valores para adotar valores animalistas opostos.

     Defender a biodiversidade, o equilíbrio das espécies e dos ecossistemas não tem nada a ver com o fato de se ocupar com o destino individual de cada animal. Não se pode salvar a espécie “leopardo” e se preocupar com o destino individual das gazelas. É necessário escolher. Para salvar o touro de lida como espécie, é preciso sacrificar alguns exemplares destinados mais a arena que ao matadouro.

     Torna-se paradoxal que para salvar a alguns exemplares tenha que condenar toda a espécie, tornada inútil no matadouro.

     Mas, não podemos nos compadecer do destino dos animais? É claro que sim.

     Devemos devolver aos nossos cachorros e gatos o afeto que nos professa, uma espécie de contrato moral afetivo nos une a esses animais de companhia, e claro é cruel bater no seu cachorro e é imoral o abandonar na estrada. Com os animais domésticos, temos outro tipo de contrato moral, eles nos dão lã, couro e carne, em troca de nossa proteção, uma alimentação adaptada e condições de vida descentes. Torna-se cruel criá-los em massa e reduzi-los a máquinas de carne. E com os touros bravos? Outro tipo de contrato nos une a eles: respeitar sua bravura enquanto vivem e até a morte. Portanto, é moral criá-los de acordo com a sua natureza brava (livre, insubmisso e rebelde) e sacrificá-los em um combate que lhes dê sentido, importância e gravidade; um cara a cara que respeita sua natureza brava e durante o qual o homem arrisca sua própria vida à altura do respeito que este tem pela vida de seu adversário. Não é isso mais moral que a contenção forçada e o sórdido silêncio de um matadouro?

    Que não gostem da tourada por uma questão de sensibilidade pessoal, é compreensível: todas as sensibilidades são respeitáveis. A quem ignora tudo sobre a tourada, as condições de vida ou de morte do touro, a ética do combate e sua estética, a todos que imaginam um espetáculo cruel e sanguinário, somente há que lhes aconselhar que visitem alguns criadouros ou assistam a algumas tarde heróicas e grandiosas. Verão a comunhão espiritual que rodeia a este espetáculo pungente e sublime. E se preferem se manter afastados dos touros e conservar seus preconceitos, são livres, na condição de que sua ignorância não os faça intolerantes com aqueles que não pensam nem sentem como eles. Mas os que se atrevem a classificar como “tortura” o perigoso enfrentamento na arena, onde o homem arrisca sua vida em cada instante, isso é uma questão de má fé. É um insulto a todos os torturados da terra. É querer inverter o sentido das palavras: torturar é sem correr nenhum perigo, fazer sofrer a um adversário que se encontra indefeso, enquanto que tourear consiste em que o animal possa em todo momento atacar livremente ao seu oponente, ao que se pode ferir a cada instante, um animal cuja bravura e perigo aumentam conforme transcorre o combate. Se fosse um boi, não deixaria de fugir (e isso sim seria tortura) e então não haveria luta, se o touro fosse realmente torturado, fugiria em lugar de redobrar esforços e seguir lutando. Falar de tortura para se referir as touradas é atacar a todas essas atividades, entretanto bem pacíficas, que implicam na morte de um animal, como a pesca com vara.

     Pode-se chamar de torturadores a esses pescadores domingueiros?

   Os aficionados não desfrutam das feridas do animal! Admiram a inteligência do homem, a bravura do animal, o valor dos combatentes, a transformação de uma força bruta em obra humana. Os auto-proclamados defensores dos animais, que adotam o monopólio da moral e dos bons sentimentos, como se nós, os aficionados, fossemos insensíveis e imorais, todos esses animalistas, se compadecem talvez dos sofrimentos de alguns, mas amam de verdade os animais pelo que são, o que fazem e o que encarnam? Aceitam a animalidade em toda sua diversidade ou o que querem é reduzi-la ao fantasma de amáveis animaizinhos de desenhos animados de Walt Disney?

   Quem ama os touros sabe que para eles o pior dos males é o stress que leva o confinamento, mais que a “dor”, anestesiado pelo combate e transformado em combatividade: o soldado – ou o toureiro!- esquece suas feridas no ardor da batalha, são absorvidas pela ação e transformadas em atos.

    Sejamos generosos e suponhamos que todo mundo é sincero, tanto os aficionados como os anti taurinos. Vamos admitir que todos amam o touro e querem defendê-lo. Uns vêem nele um herói que luta, os outros uma vítima a que se mata. Mas isso seria impossível, tanto para uns como para outros, sem uma dose de identificação. Tratemos então de responder com franqueza. O que preferiríamos se tivéssemos que nos colocar “no lugar” do animal? Uma vida de boi de campo encadeado que se acaba passivamente no matadouro ou uma vida de touro em liberdade que se prolonga em vinte minutos de combate valente? Talvez alguns tenham dúvida… Se tiverem, não denigram aos que preferem a vida e a luta do touro bravo, não denigram aos que pensam que sua sorte é uma das mais invejáveis de todas as espécies animais que o homem se apropriou para satisfazer seus fins e que povoa sua imaginação. Não sentenciem a morte das touradas nem dos touros de combate, respeitem a quem os amam.

Francis Wolff

Professor de filosofia da Univerdade de Paris.

UMA HOMENAGEM A PACO DE LUCÍA

– Comentários à “La Plazuela (bulerias)” –

Faleceu Paco de Lucía, um dos maiores violonistas que se conheceu.

As cordas da guitarra dele produziam sons magníficos que harmonizavam muito bem com uma tourada (e com um vinho Jerez, diga-se de passagem).

A música (e o vídeo com “link” abaixo) “La Plazuela” é magnífica.

Paco de Lucía é como um toureiro e a viola é como um touro. Assim como o matador tem de dominar o animal, o músico domina o instrumento.

A música entoada em “La Plazuela” é tão magistral quanto o visual de uma tourada proporcionada pelos grandes toureiros.

O vai e vem das cordas da guitarra de Paco são tão bem executados, precisos e rápidos, quanto os passes que o toureiro realiza, todos melódicos e curvos.

Os acompanhantes de Paco, no vídeo “La Plazuela”, batem na mesa e gritam “vale!”. Assim como a plateia, na “Plaza de Toros”, grita “olé!”.

No final, compreende-se que Paco dominou completamente o instrumento, os últimos acordes são como a estocada final de uma tourada.

O flamenco se desenvolve como um drama, assim como a tourada. E os dois são poéticos, vibrantes, firmes e harmônicos entre si.

Tudo muito espanhol, tudo muito esplêndido.

Vale!

São Paulo, 27 de fevereiro de 2014

 

“La Plazuela”:

DOMINGO PERFEITO – VERSÃO “LA MAESTRANZA”

 

Já se escreveu muito sobre domingos perfeitos, desde versões idiotas a bem inteligentes. Há belas versões francesas e romanas, por exemplo.

Esta é uma versão sevilhana ou à la “Maestranza”.

De manhã é hora de ir à missa. Cumprir o preceito, para isto existe o domingo. É o tempo de contemplar a renovação incruenta do calvário. Deus é a finalidade de nossa vida, temos de nos ordená-los a Ele, sacrificar nosso tempo e vida a Ele. Por isso, também, a primeira coisa a fazer no domingo é ir à missa. Em outras épocas, na bela catedral sevilhana, muitas missas eram rezadas ao mesmo tempo. E na missa se ouve o canto moçárabe.
Exemplo deste canto:

http://www.youtube.com/watch?v=Ob_YOmaW8Z8#t=150
Para conhecer a catedral

:http://www.youtube.com/watch?v=P_R1gsPDelU

E isto se relaciona com o primeiro estado, o clero.

De tarde, é a hora da tourada em “La Maestranza”, bela “Plaza” barroca e dourada, onde todo toureiro quer e deve tourear. Nesse belo espetáculo, mais uma vez temos o sacrifício e a ordenação do inferior ao superior. Entre outros simbolismos, a tourada remete à cavalaria. Em outras épocas, os nobres, excelentes cavaleiros e versados na tauromaquia, morriam se preciso fosse, nas justas batalhas pela defesa da fé. E na “Plaza de Toros” se ouve o “pasodoble”.
Exemplo:

http://www.youtube.com/watch?v=crmN3Dxjm74

E isto se relaciona com o segundo estado, a nobreza.

De noite, depois de um passeio pela orla do rio Guadalquivir, no qual, em outros tempos, os galeões iam e voltavam do novo mundo, é hora de buscar um bom “bar de tapas” em “El Arenal”, belo bairro sevilhano. “Las tapas” exigem o vinho jerez, único que combina com azeitona. E de novo temos o sacrifício, quer pelos difíceis sabores que o jerez subjuga quer pelos mesmos sabores somados ao vinho que o paladar vence. E nesses bares ouve-se o flamenco “por bulerias” bem alegre e com muitas palmas batidas.

Exemplo: http://www.youtube.com/watch?v=7D_ML35Z-e0

E isto se relaciona com o terceiro estado, os povos.

Cuida-se de os “três estados” bem representados. Temos clara a ideia de sacrifício e de ordenação. Uma mentalidade bem católica, diferente do mundo afetado que os inimigos da Igreja querem construir.

Este é o domingo perfeito na cidade reconquistada por São Fernando, rei, cavaleiro, antiecumênico, enterrado na catedral e que escorraçou os mouros.

Nossa Senhora de Macareña, esperança de Sevilha, rogai por nós.

Marcelo Andrade, 24 de novembro de 2013.

 

CARTAS I – A ORDENAÇÃO DOS ANIMAIS AO HOMEM

Recebi, por meio do amigo Eder de Campo Grande, uma série de cartas (e-mails) desaforadas, em razão de uma defesa que fiz das touradas. Tais cartas revelam o baixo nível intelectual do mundo em que vivemos, no qual as pessoas são incapazes de argumentar e logo partem para os turpilóquios.

Responderei as cartas genericamente, em duas partes, mostrando porque a tourada é legítima, de forma resumida.

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Parte I- A ordenação dos animais ao homem:

De acordo com S. Tomás:

– “A caça dos animais das florestas é justa e natural” (Aristóteles). I, Q. 96, a1.

– “Os seres mais imperfeitos são postos à disposição dos mais perfeitos”. II-II, q. 64, a.1, rep

– “Por uma ordem justíssima do Criador, a vida e a morte desses seres (animais e plantas) estão a nosso serviço” (S. Agostinho) II-II, q. 64, a.1, sol. 1.

No mundo, dito selvagem, os vegetais servem aos animais e os animais mais fracos servem aos mais fortes. E todos eles devem se submeter ao homem.

Deus criou-os para servirem ao homem, seja materialmente seja espiritualmente, neste caso, ensinando símbolos de virtudes e vícios.

Muito melhor do que deixar um touro viver e morrer no pasto, é colocá-lo na arena para o belíssimo espetáculo simbólico da tourada. Para isto foi feito.

Assim como é bem mais útil ter um computador realizando tarefas do que ele estar desligado.

Todos os animais são substâncias viventes, sensíveis e não racionais (definição tomista).

O homem é uma substância vivente, sensível e racional (definição tomista).

Entre o ser racional e o não racional há um abismo enorme, de forma que os dois têm natureza diferente.

Como o Direito nasce da natureza racional do homem, os animais não tem direito nenhum, pois são irracionais. A lei natural vincula-se ao homem, por ser racional. (Ver I-II, Q.90 e seguintes.)

Os animais, portanto, não direito de viver, de comer, ao bem estar etc.

E também, os animais não são objeto da caridade. Esta virtude, tão mal compreendida, tem por objeto Deus e os homens, nunca seres irracionais. (II-II, q.25, a.1)

Assim, alguém que “salva” um animal da morte não faz caridade nenhuma.

Os animais agem por instinto e podem ser treinados para salvar vidas ou para matar. Por isso, não há mérito na ação deles nem “culpa”.

O homem, que tem alma imortal, irá para o céu ou para o inferno. Os animais não irão para lugar nenhum.

Nos seis exemplos abaixo relacionados, temos casos nos quais é absolutamente legítima a morte dos animais e envolvem certa “crueldade” contra eles. E se relacionam com as necessidades materiais do homem.

1) Alimentação.  Um homem mata uma galinha na floresta para se alimentar.

2) Causa econômica. Um suinocultor vende porcos para o abate e com isto recebe dinheiro para sustentar a família dele.

3) Higiene e saúde local.  Ratos estão empesteando uma casa,  dono compra um veneno para matar os animais.

4) Saúde em geral. Cobaias em laboratório. Biólogos fazem experimentos com a finalidade de desenvolver um medicamento que servirá para a saúde da população.

5) Defesa de um bem. Um pastor matou um lobo porque este atacava as ovelhas

6) Roupa. Matar um “vison” para fazer um casaco.

Na caça e na tourada, estão envolvidos o lado material e o espiritual do homem:

1) “Caça esportiva”. Prática feita há milênios, visava treinamento militar, formação de caráter e simbolizava o controle da alma sobre o corpo. Havia regras a serem seguidas, rituais etc. incidentalmente, a caça gera lucros e empregos e resultava em alimentação (itens 1 e 2). Mesmo que a caça fosse neutra em relação ao lado espiritual, ela seria legítima, pois, abriga os itens 1 e 2, do elenco supracitado.

2) Tourada. Relaciona-se com a caça e vai mais além, na simbologia. Elevando à potência máxima a ordenação dos animais ao homem. Como a caça, incidentalmente, a tourada gera lucros e empregos e resulta em alimentação (itens 1 e 2). Mesmo que a tourada fosse neutra em relação ao lado espiritual, ela seria legítima, pois, abriga os itens 1 e 2, do elenco supracitado.

Vemos que os oito casos seguem o mesmo princípio: da ordenação do inferior ao superior.

Há outros casos de “maltratos” que não envolvem morte, como por exemplo:

1) Andar a cavalo. Durante milênios, os homens andaram a cavalo, maltratando os animais com horas e horas a fio de cavalgadas.

2) Tosquiamento de animais lanígeros . Durante séculos os carneiros têm sua lã retirada.

3) Injeção de veneno de cobra em equinos para obtenção de soro antiofídico.

4) Trabalho. Durante milênios se usam muares e bois para arar a terra e transportar mercadorias.

Diferente é o caso de se maltratar um animal sem razão. Neste, a conduta deve ser punida, não por causa do animal, pois, este não tem direito.

A conduta deve ser punida porque a crueldade, sem ordenação a nada elevado, se operou por pura maldade e/ou sadismo.

De modo similar, não se pode matar os animais a esmo, sem razão, não por causa deles, mas porque direitos de terceiros seriam violados.

Defender os “direitos” dos animais e/ou sua igualdade aos homens não é um valor humanista, mas sua negação. Já que seria tratar um homem como um animal.

Está escrito: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães” (Mt XV, 26) e “não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas” (Mt VII, 6).

Defender os animais como se fossem homens é propor o colapso da sociedade, já que a vida seria dificílima sem a sujeição deles aos homens.

Ser “bonzinho” com os animais é fazer mal aos homens, pois, ao emprestar “direitos” aos seres irracionais, está-se tirando reais direitos de alguém.

E a “crueldade” é inerente à sujeição do inferior ao superior, não há como matar e injetar veneno de cobra em um equino sem um mínimo de dor, por exemplo.

E por que há uma escolha, por mero capricho, dos animais a serem protegidos? Os cães são sempre os primeiros a serem defendidos e depois os touros.

Por que ninguém defende os ratos dos raticidas?

Outra curiosidade é: por que ninguém fala nas obrigações dos animais? Assim como eles teriam “direitos” segundo seus defensores, porque não teriam a contrapartida das obrigações? Por que não poderiam ser “punidos” e só “premiados”?

Por questão de coerência, os que são contra a “crueldade” feita contra os animais e defendem os “direitos” deles:

1) Não poderão comer carne de animais nem peixe nem nada que viva.

2) Não poderão usar lã

3) Não poderão  comer nada que tenha ovos de galinha, incluindo doces e massas que tenham ovos em sua composição. Os ovos, afinal, contém o embrião.

4) Defenderão que as pessoas que vivam de exploração de animais, por exemplo, os suinocultores, abandonem suas profissões.

5) Se forem picados por cobras não poderão usar soros nem tomar remédio advindos de uso de testes em animais, em laboratório.

6) Não poderão beber leite, já que isto é furtar um produto das vacas nem poderão comer laticínios nem queijos.

7) Não poderão andar a cavalo nem usar raticidas.

Etc.

Ser contra as touradas, ser contra o uso de animais em laboratório etc, sem adotar as condutas supramencionadas é pura incoerência.

E São Francisco de Assis? Não chamou os animais de irmãos?

A grandeza deste santo é proporcional à deturpação que fazem de sua biografia.

São Francisco era antiecumênico, enfrentou o sultão Malek e era a favor das cruzadas.

É verdade que chamou os animais de “irmãos”, ainda que “irmãos inferiores”.  Porém, também chamou de irmãos: o sol, o vento, o fogo, a morte corporal etc. (ver “cântico das criaturas”).

Para São Francisco, os animais são nossos irmãos assim como a morte corporal. Ele estava se referindo a toda a obra da criação e não a “irmão” em sentido estrito. Se assim fosse, além de lutar pelos animais teria de se lutar pelos direitos do “vento”.

Parte II – Justificativa da tourada pela história.

A ligação da Península Ibérica (Portugal e Espanha) com a tourada é intensa e varre muitos séculos, englobando toda a sociedade, o chamado “três estados” (Clero, Nobreza e Terceiro Estado)

Assim, a nobreza sempre disputou e apoiou torneios e os membros da família real tanto portuguesa quanto espanhola eram versados na arte da tauromaquia.

A população em geral (o “terceiro estado”) também era (e é) aficionada.

E o liame da Igreja da Península Ibérica com a tourada é bem mais estreito do que parece à primeira vista.

Nas festas religiosas e nas comemorações de canonizações sempre havia muitas touradas.

Na comemoração da canonização de Santa Teresa de Ávila, por exemplo, em 1614, foram sacrificados mais de duzentos touros em dezenas de corridas.

Igualmente ocorreram faenas quando foram canonizados santos como  Francisco Xavier,  Luiz Gonzaga etc.

E isto se estendia em todo o Império espanhol. Em Lima, por exemplo, no começo do séc. XVII, os dominicanos organizaram uma grande festa para celebrar a canonização de São Domingos de Peñafort.

Às vezes, as celebrações cruzavam as fronteiras. Em Roma, em 1492, para celebrar a conquista de Granada, realizaram-se corridas, presididas pelo cardeal espanhol Rodrigo de Borja, que se tornaria mais tarde papa.

Muitas “ganaderias” foram propriedade de religiosos, como a dos cartuxos, a dos jesuítas e a dos dominicanos, na Andaluzia. E estes religiosos promoviam várias corridas. Bispos abençoavam as arenas e assistiam ao espetáculo. Alguns deles até chegaram a construir “plazas”.

No séc. XIX algumas das melhores “ganaderias” eram de religiosos.

Em Portugal, as Santas Casas de Misericórdia possuíam e possuem várias arenas de touros. E assim, como na Espanha, havia touradas nas comemorações e festas religiosas. E muito das rendas obtidas pelas “fiestas” eram revertidas em prol de obras de caridade.

No Brasil também houve touradas no passado, assim como nas colônias portuguesas africanas , em Goa e em Macau.

Em épocas mais recentes, sabe-se que Monsenhor Escrivá assistiu a touradas no começo do séc. XX.

Diz-se que o exemplo arrasta. Pois bem, o exemplo da Igreja na Península Ibérica é pela licitude e pelo alto valor da tauromaquia.

A tourada pertence à alma ibérica, região que produziu muitos santos, mártires e heróis. E que por meio da colonização, converteu boa parte do mundo.

Mais ainda que o apoio, que os religiosos davam e dão à tourada, é interessante entender a harmonia que se vê entre a religião e a tourada, pois ambos representam a sujeição do inferior ao superior, do corpo à alma. Assim como o touro é sacrificado para o homem, nós devemos nos sujeitar a Deus e sacrificarmos, se for o caso, nossa vida por causa Dele. A tourada pode muito bem ser um símbolo do martírio.

A decadência dos valores católicos, em nosso tempo, é proporcional à aversão às touradas.

Triste mundo que é contra a tourada e não entende esta nobre arte, mas que quer o aborto.

Triste mundo que aderiu a um sentimentalismo raso em relação aos animais.

Marcelo Andrade, 11 de novembro de 2013.